27.3.06

 

O Moderno Empobrecimento Cultural

Dando corpo a um conselho de um confrade da blogosfera, vou refazer aqui um comentário que coloquei numa das suas interessantes crónicas, a propósito de um pequeno incidente linguístico internacional, por acaso, protagonizado por figura por quem não nutro especial simpatia : Jacques Chirac.

Entre os nossos putativos líderes de opinião, sejam eles dirigentes políticos, jornalistas, comentadores da Comunicação Social, gestores, aclamados ou meros aspirantes a um lugar ao sol no eldorado dos Media ( do latim, plural de medium, pronunciado à latina, como média e não à inglesa, como mídia, bagatelas culturais, mas que convém repetir, porventura até à exaustão, dada a presente córnea presunção filo-anglófona ), prevalece uma linha de pensamento pró-liberal, sobretudo no ramo social e económico, que não no das ideias, a qual, por pouco contrariada, ameaça tornar-se uma espécie de pensamento único, pronto-a-vestir, santo e senha de todo o sucesso.

Este pensamento neo-liberal, chamemos-lhe assim, pretensamente moderno, evoluído, vanguardista, todo ele hoje se pavoneia, nos mais variados palcos, criticando, por vezo, com chacota e jactância, a cultura francesa e até o uso da Língua Francesa. Normalmente, os que mais neste vezo se destacam fazem-no na justa medida em que ignoram uma e outra, coisa que não lhes causa nenhum embaraço, nem, o que é de mais espantar, repreensão dos circunstantes.

À força de tanto ostracizarem a cultura francesa, desvalorizam aquilo que, mesmo os líderes americanos, supostamente os adorados modelos desses neo-liberais, afinal, apreciam e respeitam, ainda que não o declarem expressamente.

Jacques Chirac, que está longe de poder considerar-se um ícone da França, de qualquer imaginado ponto de vista, fez muito bem em reagir daquela maneira ostensiva, abandonando a sala, quando o seu compatriota discursava em Língua Inglesa, verberando dessa forma a insensatez do seu compatriota.

Na verdade, se queremos afirmar a nossa língua e a nossa cultura, numa altura em que uma outra, a de Língua Inglesa, se pretende impor de forma absolutamente hegemónica, por vezes mesmo arrogante e desrespeitadora das demais, não faz sentido que sejam os próprios representantes do poder político das culturas subalternizadas a abdicarem do uso e da defesa das suas próprias línguas e culturas.

Além do mais, perguntar-se-á : que ganharemos nós, cidadãos europeus, com o domínio absoluto da monocultura anglo-saxónica que parece querem impor-nos ?

Ainda há coisa de trinta anos, qualquer aluno do Liceu, mesmo que se destinasse às Ciências ou às Engenharias faria obrigatoriamente cinco anos de aprendizagem de Francês, com leitura de textos, análise literária, gramatical, redacção de composições, traduções, retroversões, etc.

Acaso não veremos aqui mais um fenómeno do crescente empobrecimento cultural em que desnecessariamente estamos a cair ?

Porque uma coisa é adoptar, como língua prática de comunicação, espécie de Lingua Franca de nossos dias, o inglês, língua hodierna que mais se presta a essa função, por facilidade da sua aprendizagem e da sua melhor adequação à comunicação geral, imediata, de convívio e de sobrevivência ; outra, muito diferente, é desprezarmos a nossa própria língua e a nossa cultura, obra colectiva de séculos de culto de muitos esmerados espíritos, que aqui nos antecederam e que, com o seu esforço e engenho, nos legaram uma dignidade específica.

Demais, deve lembrar-se aos mais eufóricos com a elevação cultural pelo uso do inglês que a maioria dos seus falantes internacionais, como língua não materna, metralha uma linguagem pobre, de escasso vocabulário, de baixo quilate e retorcida sintaxe, ou seja, pouco mais que um tosco e grosseiro idioma, aquilo a que alguns britânicos já apelidaram de continental english, muitas vezes de difícil percepção para os genuínos anglófonos e para os que, com eles, esforçadamente, aprenderam a erradamente considerada fácil língua de Shakespeare.

Será fácil, se com ela apenas visarmos o nível da sobrevivência ou da mera cortesia social. No mais, podem os menos convencidos desta verdade nela se adentrar, que logo a dita, a inglesa língua, se lhes revelará muito mais trabalhosa que o apregoado.

Em todo o caso, nada justifica o descaso para que alguns, inconsideradamente, empurram as línguas nacionais de raiz latina, em geral, e a francesa, em particular.

Por isso, há que compreender e apoiar a atitude do Presidente francês, por uma vez, coerente e correcto na sua actuação política e verberar a infeliz iniciativa do seu compatriota que optou por discursar em língua inglesa.

Por cá, também temos muitos, demasiados, destes voluntariosos poliglotas que acham sempre motivo para preferirem a língua do interlocutor : inglês, francês ou espanhol, à sua própria, no afã de agradarem a eventuais novos amos.


AV_Lisboa, 27 de Março de 2006

P.S. Em breve, será igualmente preciso abordar o tema da incultura científica, praga avassaladora que urge combater. Analogamente, torna-se necessário escrever algumas notas elementares sobre conceitos fundamentais da Ciência, como o da Energia, começando pela caridade de distinguir as unidades da dita, das da Potência, coisa que, pelo que se vê, se afigura de extraordinária dificuldade para a maioria dos alegados especialistas.

Numa altura em que até os Advogados escrevem sobre a Energia Nuclear e dizem coisas hilariantes, como aquela de «... ao fim de 10 anos, a nocividade dos elementos estar reduzida a metade...», como li na semana passada, no Jornal de Negócios, é tempo de travar o passo a este novo obscurantismo.

Quando um protagonista como o nosso ex-grande líder, agora residente em Bruxelas, descobre subitamente o seu interesse pelas questões energéticas, é certamente altura de contribuir com alguma sensatez para a discussão que se avizinha.

Comments:
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